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Brasileiros impõem latifúndio à Bolívia PDF Imprimir E-mail
Pesquisadora revela a ação nociva de latifundiários brasileiros que, por meio de procedimentos ilegais, levaram a soja para o país.

Christiane Campos e Raquel Casiraghi de Buenos Aires (Argentina)

Presente ao Fórum Social de Resistência ao Agronegócio, em Buenos Aires, Argentina, a pesquisadora Sorka Copa Romero, ligada ao Fórum Boliviano sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Fobomade), fala sobre a ação nociva do agronegócio na Bolívia - promovida, em especial, por latifundiários brasileiros.

http://www.brasildefato.com.br/v01/impresso/174/americalatina/materia.2006-07-07.7880551119

Brasil de Fato - Como está estruturado o agronegócio na Bolívia?
Sorka Copa Romero -
As características do agronegócio e suas conseqüências são as comuns em todos os países. Na Bolívia, temos a Cargill, a quinta exportadora de soja do país, que controla as empresas de agroquímicos. E a Gravetal, que tem um porto próprio, financiado pelo Banco Mundial - é a segunda exportadora de grão de soja. A maioria das empresas que vendem sementes, agroquímicos e que emprestam dinheiro aos pequenos produtores, são de brasileiros. De todas as empresas de agroquímicos existentes da Bolívia, 80% pertencem a brasileiros. Os dois grandes produtores brasileiros são Ricardo Cambruzzi (proprietário da Gravetal) e Ricardo Wazilewski. Wazilewski tem três mil hectares e Cambruzzi tem 5 mil hectares. Eles também estão inseridos nas instituições governamentais onde se tomam as decisões. Dentro da Associação Nacional de Produtores de Oleaginosas (Anapo) há brasileiros que manipularam para que a Associação apresentasse uma solicitação para experimentos de campo semi-comerciais de soja transgênica. Posteriormente, a Fundação Agrícola para o Desenvolvimento de Santa Cruz (Fundacruz), que é uma empresa dirigida pelo brasileiro Ricardo Cambruzzi e associada à empresa Mato Grosso, no Brasil, também solicitou a aprovação para trazer soja transgênica ao país. Ou seja, está tudo armado. Se a Monsanto não conseguir a aprovação, ou a Anapo não aprovar, outras empresas pedem e pressionam para que seja liberado. O que argumentamos é que a Fundacruz, que pertence a um brasileiro, não pode pedir a aprovação de sementes transgênicas em outro país, no caso, a Bolívia. Então, a Fundacruz e a Anapo retiraram os pedidos. No entanto, enquanto estávamos contestando os pedidos dessas duas empresas, a Monsanto conseguiu a aprovação.

BF - Quando os brasileiros chegaram à Bolívia?
Sorka -
O maior dos produtores, Ricardo Cambruzzi, está na Bolívia desde 1994. Ele é do Rio Grande do Sul. Na Bolívia, nessa época, as terras estavam muito baratas e a maioria não era cultivada. Havia também a pobreza e a debilidade de organização dos camponeses, que vendem as terras por um preço baixo. Esses grandes produtores fi zeram a demarcação de terras de forma ilegal, manipulando o Ministério da Agricultura e o Instituto Nacional da Reforma Agrária.

BF - De que forma a soja chegou à Bolívia, se transformando em um produto do agronegócio?
Sorka -
A soja foi introduzida na Bolívia a partir da década de 1970, não é um cultivo original do país. As variedades introduzidas e adaptadas, de origem brasileira, se deram muito bem no solo da província de Santa Cruz, que é parecido com as terras do Estado do Mato Grosso. Nos primeiros anos, a soja deu um bom rendimento. Foi destinada à exportação, principalmente para os países da Comunidade Andina. Quando a Monsanto introduziu a soja transgênica, a previsão era de que a produção do grão fosse dobrar. No entanto, não se deu dessa forma porque a variedade geneticamente modificada trazida pela empresa é de origem argentina. E as variedades argentinas, historicamente, nunca se adaptaram ao solo boliviano. O fracasso da soja transgênica na Bolívia é atribuído a isso. Os produtores plantaram e, como não conseguiram bom rendimento e o cultivo não se tornou rentável, deixaram de produzir soja transgênica.

BF - Há outros monocultivos na Bolívia?
Sorka -
Diferente da Argentina e do Brasil, onde a soja se tornou monocultivo, na Bolívia não aconteceu isso. Porque, na Bolívia, se faz a rotação de culturas. Por exemplo, em um lugar em que se colheu a soja, o próximo cultivo vai ser de milho. Os agricultores manejam muito bem a rotação porque eles têm consciência de que, se não o fizerem, os nutrientes da terra não se regeneram. Ou seja, a terra deixará de ser agricultável. Parte da produção de milho boliviana vai para exportação e outra parte vai para o consumo interno. Algumas regiões também produzem trigo e outras sorgo, para a alimentação animal. Há uma variedade de cultivos na Bolívia. Por isso, não há monocultura. Setenta por cento dos produtores da Bolívia são pequenos produtores, 15% são médios e 5% são grandes produtores. Em relação à extensão de terra, os grandes produtores têm mais terras do que os camponeses. Em relação à produção, 50% vêm dos grandes e 50% dos pequenos. Essa grande produção dos latifundiários acontece porque eles detêm os meios tecnológicos de produção, como maquinário, e as grandes porções de terras. Somando a produção dos pequenos e dos médios, supera-se a dos grandes. Os latifundiários do país são bolivianos, brasileiros e japoneses.

BF - Como está a situação dos camponeses com o novo governo?
Sorka -
A situação dos camponeses agora é bem diferente da anterior porque um dos principais planos de governo do Movimento ao Socialismo (MAS) é o apoio à produção do pequeno produtor, desde que seja agroecológica e que vise abastecer o mercado interno. Antes, os camponeses só podiam comercializar sua produção por meio de um intermediário, a Anapo, à qual estavam associados pequenos (em maior parte), médios e grandes produtores. Os camponeses dependiam da Associação, que lhes facilitava empréstimos e lhes fornecia insumos. No entanto, a Anapo se apropriava da produção camponesa e exportava. Agora, os pequenos produtores estão se associando entre si para eles próprios comercializarem sua produção, sem depender de intermediários. Hoje, o governo está concedendo empréstimos a juros baixos, com apoio do governo venezuelano.

BF - Os latifundiários resistem à reforma agrária de Evo Morales?
Sorka -
Nós todos achamos que a iniciativa da “revolução agrária” de Evo Morales é muito boa, tanto na prática como na teoria. Está diretamente ligada à agricultura que prioriza a soberania alimentar. Há problemas, sim, porque temos grandes latifundiários no país, principalmente brasileiros. As terras da Bolívia estão nas mãos de apenas cem grandes famílias. Tenho informações de que alguns brasileiros estão pagando camponeses para que resistam e protestem contra a revolução agrária. Os brasileiros estão usando a nossa gente para que se diga “os bolivianos estão protestando contra a revolução agrária”. Na verdade, quem está armando tudo isso é um latifundiário.

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