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CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL Conselho Episcopal de Pastoral _ 14ª Reunião BrasÃÂlia - DF, 10 a 12 de maio de 2005 Análise de Conjuntura / Maio 2005 Não é documento oficial da CNBB Apresentação Esta Análise tem como focos a situação polÃÂtica do governo Lula após a eleição da Mesa diretora da Câmara, o impasse dos movimentos sociais em confronto com a polÃÂtica econômica, e dentro das relações internacionais, a instabilidade na América Latina. Na conclusão, destaca-se a apreciação de projetos aprovados ou em discussão no congresso. 1. Desalento polÃÂtico em tempos severinos. A eleição de Severino Cavalcanti para a presidência da Câmara dos Deputados antecipa a campanha eleitoral de 2006. Os setores sociais representados pelo PSDB, PFL e parte do PMDB viram-se ameaçados pelo candidato governista Eduardo Greenhalgh, cuja biografia de militância nos movimentos sociais e apoio ao MST, sinalizava para uma Câmara mais comprometida com a necessária transformação social no paÃÂs. Diante desta ameaça aos _donos do poder_, estes se articularam e, tirando proveito da divisão na base governista, impuseram uma importante derrota ao Governo Lula. A eleição da Mesa Diretora da Câmara de Deputados sinaliza que está em vigor a tática "do quanto pior, melhor". Na posição de Presidente da Câmara, Severino Cavalcanti pode criar muitos obstáculos àtramitação de projetos originários do Executivo. Sua oposição dissimulada "amarra" o Governo, que deverá "pagar caro" cada aprovação de proposições que lhe interessem. Imobiliza-se, assim, o governo Lula nos dois anos em que ele poderia assegurar sua reeleição. Com Lula enfraquecido, os _donos do poder_, embora satisfeitos com a manutenção da polÃÂtica econômica, poderão buscar outro nome para a Presidência da República. Todavia, os deputados que elegeram Severino não contavam com a reação da sociedade brasileira. A avalanche de mensagens eletrônicas contra a proposta de aumento salarial para os deputados federais e até mesmo o dia de luto como forma de protesto, demonstram que a sociedade brasileira não vai assistir apática ao que acontece no Congresso Nacional. À luz desses acontecimentos, a derrota do PT na Câmara traz de volta a questão que por muito tempo o próprio partido se fez: _Para chegar ao poder, não se deve antes organizar a sociedade?_ A via eleitoral foi escolhida para abrir espaços de organização polÃÂtica do povo, sendo as campanhas eleitorais uma forma de educação polÃÂtica. Ao priorizar a vitória eleitoral, o PT conquistou a Presidência da República, mas, como disse Lula, não conquistou o poder. Com o passar do tempo, vai perdendo autonomia de ação, refém de acordos e alianças que impediram a prevista reforma ministerial e acabaram trazendo para o Ministério da Previdência um senador suspeito de corrupção. Tudo isso provoca desalento e descrença nas instituições polÃÂticas. Neste clima, a mÃÂdia, instrumentalizada e dominada pelas oligarquias nacionais, tudo faz para jogar na vala comum as instituições polÃÂticas que _ bem ou mal _ garantem a democracia. Toda mobilização social é desincentivada, enquanto a _baixaria_ só faz aumentar. As oligarquias brasileiras, que sempre colocaram os poderes públicos a seu serviço _ como se o legislativo, o executivo e o judiciário não fossem mais que postos onde alocam seus subordinados (o Brasil já foi definido como um _Estado cartorial_), desfrutam de uma enorme autonomia e organizam-se de modo corporativo. A cultura patrimonialista que legitima a apropriação indevida pelas elites dos orçamentos e dos bens públicos, torna _normal_ o funcionamento do sistema polÃÂtico a base de nepotismo, clientelismo, polÃÂticas de favores e outras formas patológicas do exercÃÂcio do poder, que se aparentam aos processos de corrupção. Exemplo desse poder oligárquico é o avanço do agronegócio na Amazônia. O desmatamento, que foi de 20 milhões de Ha por ano entre 2001-2003, passou a 23 milhões em 2003-2004, dado que provavelmente vai repetir-se este ano. Não se trata apenas de uma devastação ecológica (no ritmo atual, a floresta desaparecerá em 25 anos), mas de um avanço do capitalismo, no qual madeireiros, carvoeiros, pecuaristas e plantadores de soja aquecem o mercado de terras, hoje negociadas até por internet. Sob o olhar impotente ou complacente do Estado, a _terra de negócio_ vai tomando o lugar da _terra de trabalho_ dos pobres. Seguros do seu poder, os realmente ricos sabem que só uma forte organização popular, vinda das bases, será capaz de quebrar esse secular sistema de dominação, e tudo fazem para impedir essa organização, ou, quando não o conseguem, para cooptar seus lÃÂderes. Aqui situa-se o desafio do renascimento dos movimentos sociais. 2. O Renascimento da sociedade civil e o impasse econômico A experiência dos movimentos sociais, ao longo dos últimos 50 anos, ensina que somente a pressão polÃÂtica, social ou moral pode conquistar melhorias na sua vida cotidiana. Desde o fim do _populismo_ varguista, quando algumas concessões foram feitas antes mesmo que houvesse reivindicações massivas, eles aprenderam, pela experiência de acertos e erros, que as conquistas sociais e econômicas não são uma benevolência dos poderosos, mas concessões que eles se vêem obrigados a fazer para se manterem no poder. Apesar da propaganda oficial exaltar os valores do nosso povo, a prática do governo Lula não tem valorizado a capacidade de mobilização do povo, que esperava ser seu parceiro no projeto de mudanças. Sua prioridade polÃÂtica tem sido a articulação parlamentar no âmbito do Congresso. Dadas as limitações da democracia representativa em nosso paÃÂs (a reforma polÃÂtica, como veremos adiante, está emperrada) seu diálogo com a sociedade civil é restrito a fóruns, conselhos e conferências, onde o governo mais fala do que escuta . Isso fica evidente no que se refere àReforma Agrária e àAgricultura Familiar. Os movimentos sociais organizados têm consciência de que as reivindicações populares só poderão ser atendidas quando for mudado o rumo da polÃÂtica econômica, até hoje a serviço do grande capital, como mostra, com fina ironia, o texto seguinte. Do pau-brasil àsoja: um milagre econômico às avessas Quando da independência das Treze Colônias da Nova Inglaterra, o deputado liberal da velha, Adam Smith (o pai Adam de todos os economistas) observou aos pares que a perda não era trágica. Ruim seria Londres perder suas ilhas das CaraÃÂbas. O Brasil tem contado com o aplauso da finança internacional por se haver tornado uma Jamaica semicontinental atualizada. De maneira moderna, a relação externa aprofunda progressivamente sua hegemonia sobre nossa economia e polÃÂtica econômica. Nos tempos coloniais, quando o açúcar fazia Pernambuco e ParaÃÂba terem renda per caput mais alta que a daqueles pobres e atrasados ianques, a _lógica_ era a da vantagem comparativa. Hoje, é a da _integração realista e dinâmica na globalização_ (a mesma, formulada mais sofisticadamente). A taxa de juros continua subindo (sob pretexto de conter a inflação). Tornar o Brasil atraente para _o mercado_ é o que se quer. O sucesso no fluxo financeiro faz com que o dólar cujo valor real (em termos de mercadorias) seria ao redor de R$ 3,20, esteja a menos de R$ 2,60 no mercado, tornando mais difÃÂcil a exportação de produtos industriais brasileiros, porque encarecidos em moeda externa. Talvez o principal seja a opção preferencial pelo agronegócio. A cana de outrora é soja no século XXI. Há que exportar a todo o custo e no item grãos para alimento (sobretudo animal) o Brasil tem vantagem comparativa. Preocupações ecológicas são atropeladas na urgência de decisões sobre transgênicos. A floresta amazônica está sendo devastada. A prioridade àpropriedade familiar voltada para o mercado interno que se esboçava no apoio técnico e financeiro do governo, é interrompida como _ideológica_. A direção da EMBRAPA, que orientava as pesquisas para o apoio àpequena unidade agrÃÂcola, era _ideológica_. _Técnico_, _pragmático_ é o serviço da EMBRAPA ao agronegócio, que vai bem e tem sido aplaudido pelos credores. Neste contexto, perde sentido falar da Reforma Agrária, ainda mais _ideológica_ que o apoio técnico da EMBRAPA àpequena propriedade. Por que razão _desviar_ da exportação terras que ela pode vir a usar? Na medida em que se difunde a consciência de que o atendimento às demandas populares requer mudança de rumo da polÃÂtica econômica, se torna mais difÃÂcil a relação entre o governo Lula (que já disse, reiteradamente, acreditar no seu acerto) e os movimentos populares. Eles precisam politizar sua base social e elevar o nÃÂvel de seu discurso, para enfrentarem os condicionamentos impostos pela equipe econômica. Mas isso implica maior radicalização e traz o desafio de virem a ser acusados de enfraquecer o governo Lula. Neste contexto dois fatos são marcantes. O primeiro foi o Acampamento Terra Livre, em BrasÃÂlia, reunindo cerca de 800 lideranças indÃÂgenas _ muitos jovens _, de quase 90 povos, de todas as regiões do paÃÂs. Defenderam seus direitos constitucionais e mostraram conhecer de perto as questões que afligem as comunidades: terra, saúde, educação, sustentabilidade ambiental etc. Entre as principais conquistas do _Abril IndÃÂgena_ está a perspectiva de criação do Conselho Nacional de PolÃÂtica Indigenista, proposta consensual e estratégica do movimento indÃÂgena. Mesmo sabendo que os inimigos dos povos indÃÂgenas tentarão anular essa conquista no governo federal, no Congresso, na mÃÂdia e junto àsociedade nacional, o Acampamento Terra Livre demonstrou o protagonismo polÃÂtico dos povos indÃÂgenas no Brasil. O segundo fato é a Marcha Nacional pela Reforma Agrária, que está mobilizando milhares de pessoas a caminho de BrasÃÂlia, onde chegarão no dia 17 de maio. Ela poderá levar o governo a resolver os problemas pendentes em centenas de acampamentos de sem-terra esparramados pelo paÃÂs, a melhorar a qualidade de vida das famÃÂlias assentadas e também propiciar as condições para que seja retomado o Plano Nacional de Reforma Agrária e se cumpra a meta de assentar 430 mil famÃÂlias até 2006. Mas tal êxito depende de uma grande organização, que não é fácil quando os movimentos de massas, no seu sentido mais amplo, se encontram fragilizados pelo ideário neoliberal, pelo desemprego e subemprego, pela perplexidade polÃÂtica de suas lideranças e pela falta de um partido polÃÂtico que as represente (pois o PT tornou-se um partido do governo e só um resto ainda se alinha com esses movimentos sociais). Por outro lado, essa radicalização dos movimentos sociais no sentido de mudar o rumo da polÃÂtica econômica, pode ser capitalizada pelos setores conservadores, que, em defesa dos seus interesses, já estão pedindo que o governo mostre sua autoridade reprimindo-os. Exemplo disso é o aumento da violência e da repressão contra o Movimento dos Atingidos por Barragens, como a prisão de sete agricultores, acusados de provocarem anarquia e desordem social, em Campos Novos _ SC, a repressão da PM a um protesto de agricultores contra a construção da barragem de Jurumirim, em Rio Casca - MG e a operação do Exército na Usina Hidrelétrica de TucuruÃÂ, no Pará, para prevenir manifestações no local. Na base desses conflitos está o fato de as empresas proprietárias não quererem adotar o critério de terra por terra aos desalojados. Quando as famÃÂlias reclamam, as empresas acionam a PolÃÂcia e o poder Judiciário para a repressão. Essa criminalização dos movimentos sociais encontra eco favorável mÃÂdia, que pinta as lideranças populares como baderneiros interessados em beneficiar-se às custas de pobres que eles dizem representar. É nesse difÃÂcil contexto que os movimentos sociais, apesar de tudo, renascem e se articulam, mesmo sem o apoio do governo no qual muitos deles continuam teimosamente acreditando. O Mutirão por um Novo Brasil, patrocinado pelas Igrejas, pastorais e movimentos sociais associados à4ª Semana Social Brasileira, quer retomar com vigor as lutas de massa, na perspectiva de acúmulo das forças sociais, como caminho viável na construção de um projeto acertado para a Nação Brasileira. Ele quer superar o momento de desagregação da esquerda e dos movimentos de massa, e realçar o protagonismo dos Movimentos Sociais na construção de um projeto de cidadania ativa para o Brasil. O processo da 4ª SSB está a caminho do grande encontro nacional em outubro próximo. O acúmulo de debates, mobilizações e articulações, realizados em todos os estados do Brasil serão a base para a plataforma de acordos e compromissos comuns das principais forças sociais do PaÃÂs, que terão ampla participação neste encontro. 3. A inserção do Brasil no mundo O Governo Lula montou sua polÃÂtica externa a partir da estratégia de conquistar aliados os mais diversos, para buscar a superação da desigualdade nas relações econômicas e mundiais e assim eliminar a fome e a miséria. Sua polÃÂtica interna, porém, é determinada por alianças que impedem a realização dos direitos sociais inscritos na Constituição de 1988. Essa contradição coloca em questão se a polÃÂtica externa trará bases sólidas para as necessárias reformas. As polÃÂticas do governo Lula se inscrevem num contexto internacional que, em parte, as determina. O processo de globalização crescente reforça a interdependência. Nenhum paÃÂs pode ignorar o novo âmbito mundial na definição de suas polÃÂticas. Lula procura reforçar a presença do paÃÂs no comércio internacional, aumentar a influência polÃÂtica do Brasil e conquistar certa liderança entre os paÃÂses do _Sul_ na perspectiva duma nova ordem internacional. Esses objetivos devem ser situados no panorama internacional atual, onde três elementos se destacam. Unilateralismo A última década viu a hegemonia econômica, ideológica e militar dos EUA se reforçar sensivelmente. A _guerra geral_ contra o terrorismo (Afeganistão, Iraque e Palestina) aumentou as tensões nas relações internacionais e a desconfiança da opinião pública. As nomeações feitas após a reeleição do presidente Bush não assinalam uma _distensão_ , mas sim um novo equilÃÂbrio mundial sob a liderança dos EUA e da China, com a Europa e o Japão em secundo plano. Iniciativas multilaterais, como a limitação de emissão de gazes de _efeito estufa_ (hoje inquestionável) e o reconhecimento do Tribunal Penal Internacional, estão fora da agenda de Bush. O Brasil, que teme se opor ao poderoso vizinho do Norte, está numa posição desconfortável, embora sua voz tenha sido mais ouvida hoje do que nos oito anos de FHC. Guerras A guerra _preventiva_ ao terrorismo levou ao aumento do orçamento militar dos EUA (mais de 400 bilhões de dólares em 2004, sem incluir as despesas de guerra contra o Iraque e o Afeganistão) e a hegemonia dos _falcões_ em Washington. As eleições no Afeganistão e no Iraque não criaram estabilidade polÃÂtica, pois a _paz_ é mantida pelas armas. Na Palestina continua a construção do _muro da vergonha_ para isolar a Cisjordânia e agora, também Jerusalém, apesar da condenação pela Corte Internacional de Justiça a Israel. Na ÃÂfrica, os conflitos (atrás dos quais há interesses de grandes empresas) continuam fazendo vÃÂtimas na população civil. As grandes potências têm meios para resolvê-los, mas preferem não intervir. Já morreram, na última década, mais de 2 milhões de pessoas. Só em Darfur, provÃÂncia ocidental do Sudão, 180.000 morreram nos últimos dezoito meses e 700.000 tiveram que refugiar-se. Miséria. O crescimento da miséria em muitos paÃÂses ficou escondido sob a ligeira melhoria nas estatÃÂsticas da ONU, devida aos bons resultados da luta contra a pobreza na China, e em menor medida, na ÃÂndia. Na América Latina o número de pobres aumentou em 11 milhões nos três últimos anos. O presidente Lula tenta criar na ONU, junto com outros chefes de Estado, um fundo contra a fome e miséria, mas encontra pouco apoio. O Banco Mundial, o FMI, a OMC e agora o Fórum Econômico Mundial de Davos juram lutar contra a pobreza e miséria, mas as medidas concretas não seguem as boas intenções. A globalização financeira sem limites nem controle só tem aumentado as desigualdades entre grupos sociais e entre paÃÂses, a pobreza, a exclusão e a miséria. A ÃÂfrica é o continente mais abandonado a seu triste destino: ali estão 39 dos 61 paÃÂses mais pobres do mundo. Os investimentos orientam-se unicamente para a exploração dos recursos naturais, sem beneficiar a população. As dÃÂvidas asfixiam qualquer possibilidade de desenvolvimento. Neste contexto, os Estados _ grande parte deles em desmantelamento _ não têm condições de lutar contra o flagelo da AIDS, que dizima a população. Em 1995 a ONU estabeleceu como meta reduzir pela metade a pobreza no mundo nos vinte próximos anos. Os _Objetivos do Milênio para o Desenvolvimento_ são o maior projeto histórico para reduzir a miséria, e sua aprovação expressa o avanço da consciência mundial, deixando claro que _vivemos num mundo indiviso, onde os ricos não podem mais ignorar os pobres_ (Amartya Sem). Mas seus resultados são decepcionantes e provavelmente os objetivos não serão atingidos, porque o _Norte Global_ (os ricos, independentemente de seu paÃÂses) não vê motivos para partilhar seus bens com o _Sul Global_ (o conjunto dos pobres do mundo). O contexto sul-americano A transição democrática bem sucedida ao fim das ditaduras nos anos 1980 abriu o caminho para a eleição de presidentes com um projeto social e democrático, em oposição ao neoliberalismo hegemônico dos anos 1990. Essa onda reformista, que representa a insatisfação com as conseqüências da globalização, em particular o aumento da miséria, deu a vitória a candidatos de perfil nacionalista, popular ou até mesmo de esquerda em muitos paÃÂses da região. Eleitos, porém, eles dificilmente conseguem promover reformas sociais e são levados a manter a ortodoxia macroeconômica. As situações são diversas. No Equador e Peru, Lúcio Gutierrez e Alejandro Toledo, abandonaram até o projeto de reformas sociais. Gutierrez foi deposto por uma irreprimÃÂvel onda de protestos populares. Na Argentina, a situação caótica da economia e uma insurreição popular latente, não deram a Kirchner outro alternativa senão enfrentar os credores e o FMI, até agora com sucesso. No Chile e no Brasil, Lagos e Lula prometem reformas, mas sem tocar nas estruturas polÃÂticas e econômicas vigentes. No Uruguai, Tabaré Vázquez ainda não mostrou como se posicionará diante dos poderosos interesses financeiros. A BolÃÂvia apresenta uma situação instável, pois os movimentos indÃÂgenas, bem organizados, resistem eficazmente contra a virada neoliberal do governo. Já na Venezuela, Hugo Chávez apoia-se na mobilização popular e promove importantes reformas sociais, inclusive a reforma agrária e diminui o poder concentrado nas mãos duma minoria. Não por coincidência, aumentam a hostilidade de Bush e a solidariedade de Cuba. Reais transformações sociais, de fôlego, não poderão acontecer sem a integração da região. A ALCA, na qual muitos paÃÂses perceberam o risco do neocolonialismo institucionalizado, operou uma certa aproximação entre os vários paÃÂses, levando os EUA àestratégia de _dividir para reinar_. Unidos no Mercosul, Brasil, Argentina e Paraguai _Vázquez está questionando a validade do acordo assinado por seu antecessor _resistem àimposição norte-americana e querem reforçar e ampliar o Mercosul para construir a Comunidade Latino-Americana das Nações. Cabe mencionar aqui a situação do Haiti. Um ano depois da destituição de Aristide, o desastre humanitário e a confusão polÃÂtica só fazem aumentar. Os _capacetes azuis_, sob comando brasileiro, só parcialmente cumprem sua missão. Não conseguem impedir as violências na sociedade ou entre grupos armados, nem preparar um ambiente favorável para as eleições gerais em novembro deste ano. Instabilidade estrutural. A instabilidade regional ficou evidente neste mês de abril. Na cidade de México houve mega-manifestações em favor do seu prefeito e principal adversário polÃÂtico do presidente Vicente Fox. A vitória eleitoral de Obrador parece doravante muito provável. Na Nicarágua, o aumento do preço do transporte foi um pretexto para muitos protestos contra a polÃÂtica do presidente Enrique Bolaños, pedindo a sua renúncia. Mas foi, evidentemente, no Equador, que o descontentamento profundo da população se expressou mais diretamente. O Coronel Lúcio Gutiérrez, eleito em novembro de 2002, levantou uma grande esperança num paÃÂs onde as condições de vida da maioria da população, indÃÂgena, muito se deterioraram na última década. O embargo total dos EUA sobre a economia e a maioria das instituições do paÃÂs fez que em poucos meses ele mudasse de lado. Ao nomear uma corte suprema subserviente, desagradou às forças armadas. Buscou o apoio dos EUA, dizendo-se o _principal aliado de G.W. Bush na América Latina_ e firme partidário dos tratados de livre comércio. Foi condecorado pelo chefe das forças armadas norte-americanas na AL pela imunidade conferida a suas tropas no Equador. Cresceu a distância entre o presidente e o conjunto do paÃÂs e uma nova aliança parlamentar precipitou a crise. O povo indÃÂgena, que muito tinha contribuÃÂdo para a eleição do presidente, desceu às ruas. Pressionado pelos levantes populares, o Parlamento depôs o presidente. Foi o terceiro em 8 anos. Ignorando o descontentamento da população, a secretaria de Estado Condoleezza Rice instou por novas eleições. A OEA _ voz dos EUA _ endossou a recomendação. Mas a crise é muito profunda para ser resolvida apenas por eleições. O povo está revoltado contra a submissão do PaÃÂs aos interesses estrangeiros, e o paÃÂs está se decompondo. São os movimentos indÃÂgenas que ainda mantêm uma certa coesão. Por quanto tempo? 4. Ecos do Congresso Nacional Uma questão crucial no Legislativo de hoje: o instituto da Medida Provisória (MP) congestiona continuamente a pauta dos trabalhos. A MP foi estabelecida pela Constituição de 1988 como instrumento a serviço do Presidente da República em casos de relevância e urgência. A maioria dos assuntos das Medidas Provisórias não têm sido, de fato, nem de relevância nem de urgência. Fazem a transferência do Legislativo para o Executivo na função de legislar, gerando paralisia na prática parlamentar. Os últimos governos têm abusado desta prerrogativa. Estão em discussão propostas de novo rito de tramitação, através de uma comissão mista. Propostas em estudo: a) já há entendimento de que é indispensável que haja alternância no ingresso das MP - Senado ou Câmara; b) a admissibilidade passaria a ser analisada e decidida apenas pela casa em que a MP ingressa; c) redefinição dos prazos para a tramitação das MPs. Projetos de leis de Bioética e afins A votação do Projeto de Biossegurança, com todas as ambigüidades conhecidas, deixou muitas lições para o nosso trabalho de acompanhamento aos Projetos de lei do mesmo teor. Alguns aspectos merecem atenção: a) O processo de votação revelou que estamos diante de um novo quadro da evolução da ciência, ainda com interrogações. De um lado, percebemos que se descortinam esperanças para a população, como no caso das células-tronco adultas, ao mesmo tempo urge um rÃÂgido discernimento ético em suas prerrogativas (como no caso do uso de embriões para pesquisa); b) Daàa necessidade de maior preparo para enfrentamento desses temas _ tanto por parte das nossas Igrejas como por parte dos parlamentares. Vivemos uma cultura onde a subjetividade exacerbada, atenta para soluções imediatas, é movida mais pelas emoções do que pelo desejo de critérios em defesa da vida; c) Também a experiência dessa votação mostrou que a palavra do Magistério eclesial perdeu força junto aos legisladores do paÃÂs. A laicidade do Estado tem sido alegada para desqualificar a palavra da Igreja sobre temas de bioética: no Legislativo, no Executivo (Ministério da Saúde) e no Judiciário; d) Esta nova realidade está exigindo que a Igreja reformule suas estratégias de formação dos cristãos (a questão mais profunda ultrapassa o embate jurÃÂdico). Torna-se necessário nova forma de diálogo com os parlamentares e polÃÂticos em geral, sobretudo no âmbito das Igrejas locais, onde eles têm suas bases polÃÂticas e estão mais sensÃÂveis às propostas e aos reclamos da sociedade. Há no Congresso um grande número de Projetos de Bioética e afins (cf. em anexo uma lista de projetos em tramitação) revelando a nova sensibilidade da sociedade e dos parlamentares. Está marcada na sede da CNBB, no dia 31/05, uma reunião de um grupo de parlamentes para estudar esta lista de projetos, o seu andamento e estratégias de ação. Está em fase de preparação um Conselho de Bioética que consiste numa instância de referência para análise e discussão de temas de Bioética. Tem como atribuição atuar como um balizador moral ao dar visibilidade e enunciar corretamente questões de difÃÂcil compreensão tanto para a sociedade como para os governantes e o paÃÂs, revelando toda a complexidade de seus efeitos e implicações. Será um órgão consultivo de assessoramento ao Presidente da República, sem personalidade jurÃÂdica própria, mas com autonomia relativa para que disponha de uma dotação orçamentária, independente de programas de governo, com membros indicados pela sociedade civil e nomeados pelo poder público. A proposta original foi apresentada pela CNBB ao Presidente Lula. Esta proposta, estudada por uma comissão articulada pelo Ministério da Saúde, está na Casa Civil que deverá encaminhá-la como Projeto de Lei ao Congresso Nacional. A Reforma PolÃÂtica No momento, a palavra _Reforma_ ganha espaço: polÃÂtica, tributária, sindical e trabalhista... No entanto, o Projeto da Reforma PolÃÂtica, em tramitação na Câmara, parece ser a mais fundamental e urgente, diante dos desafios prementes dos processos eleitorais que ameaçam a própria democracia. O objetivo deste Projeto é reforçar o partido como instituição de representação polÃÂtica da sociedade junto ao Estado. Para isso, ele propõe: fidelidade partidária, financiamento público das campanhas, listas preordenadas de candidatos, cláusula de barreira e proibição de coligações partidárias. Embora as lideranças digam que a Reforma PolÃÂtica poderá ser logo aprovada, a correlação de forças no Congresso faz que só uns poucos parlamentares apostem na aprovação integral do texto ainda este ano. Com exceção da fidelidade partidária, os outros pontos importantes da Reforma são controversos. Uma das alternativas para evitar a paralisação da Reforma é a sua votação em partes, ou, então, votar o texto de uma única vez, mas estabelecendo prazos diferenciados para sua entrada em vigor. Nas eleições de 2006 começariam a valer mecanismos que fortalecem a fidelidade partidária, como o estabelecimento de prazos de filiação de candidatos. As questões mais polêmicas - o voto em lista partidária e o financiamento público da campanha - só entrariam em vigor mais tarde. Nossos grupos da Igreja vêm insistindo na urgência do aperfeiçoamento do arcabouço jurÃÂdico das instituições polÃÂticas como condição para a consolidação da democracia. Daàa força moral da Lei 9840 contra a corrupção eleitoral, apesar de continuamente ameaçada. Numa visão mais ampla de reforma polÃÂtica, em busca de uma nova cultura polÃÂtica, o Professor Fábio Comparato, com o apoio da OAB e da CNBB, está liderando uma Campanha, para um Projeto de Lei que regulamente o art. 14 da Constituição Federal, em matéria de plebiscito, referendo e iniciativa popular. A motivação do projeto: o povo brasileiro tem o direito de votar em eleições, mas não tem como exigir que o governo respeite os seus direitos sociais. O povo tampouco tem o direito de rejeitar emendas constitucionais, leis ou tratados internacionais, que prejudicam o paÃÂs. Além disso, as leis propostas pelo povo podem ser alteradas ou revogadas sem consentimento do povo. Este projeto de lei se propõe corrigir esses abusos. A proposta, apresentada pela OAB àComissão de Legislação Participativa, da Câmara dos Deputados, foi aprovada por unanimidade. Segue agora a tramitação regular dos projetos de lei. O trabalho de coleta de assinaturas será um apoio popular que dará legitimidade ao projeto. Câmara avalia Referendo popular sobre as armas Há grande expectativa quanto ao Projeto de Decreto Legislativo sobre o Referendo popular, previsto no Estatuto do Desarmamento (Lei 10826/03) para outubro deste ano, para decidir sobre a proibição da venda de armas de fogo e munições no Brasil. O Estatuto do Desarmamento já restringiu o porte de armamentos. Pesquisas recentes constatam que um cidadão armado tem 57% de chances a mais de ser assassinado do que os não possuem armas de fogo _ isto num paÃÂs onde se morre mais por arma de fogo (27%) do que por acidente de trânsito (25%). O Projeto do Decreto precisa ser votado logo, para que o Referendo se realize neste ano. Requerimento assinado por 8 lÃÂderes, representando 290 deputados, pediu urgência na votação. O presidente da Câmara ressaltou que vai atendê-lo. O presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Carlos Velloso, é favorável: "Devemos fazer tudo para que este referendo saia. Que o povo brasileiro seja esclarecido para que o verdadeiro titular do poder - que é o próprio povo - decida se é a favor ou contra o projeto que proÃÂbe a compra de armas". A CNBB, nas pegadas da Campanha da Fraternidade deste ano, está empenhada na realização deste Referendo como instrumento de paz. Frente propõe a criação do Parlamento Mundial Foi instalado na Câmara dos Deputados uma Frente Parlamentar com o objetivo de criar um Parlamento Mundial. Este Fórum Parlamentar propõe um espaço para que as nações possam conversar e buscar soluções para os conflitos e assuntos que ultrapassam as fronteiras de cada paÃÂs. Os integrantes da Frente já aprovaram a realização de um seminário internacional em BrasÃÂlia, em junho deste ano, com a participação de parlamentares de vários paÃÂses e lideranças da sociedade civil para discutir e pensar o Parlamento Mundial. A iniciativa acontece em boa hora quando é evidente o esgotamento da ONU na democratização das relações internacionais. Este Parlamento Mundial pode tornar-se uma alternativa internacional, no caso em que a ONU venha a tomar decisões sem respeitar os anseios do mundo democrático. A idéia está em sintonia com as propostas do 5º. Fórum Social Mundial que reuniu, em Porto Alegre, 180 mil pessoas de 151 paÃÂses. Renda básica de Cidadania Em janeiro de 2005, o Presidente da República sancionou a Lei que instituiu a renda básica da Cidadania, como direito de todos os brasileiros residentes no PaÃÂs e estrangeiros residentes há pelo menos 5 anos, receberem, anualmente, um benefÃÂcio monetário. Esta quantia deverá ser alcançada em etapas, a critério do Poder Executivo, priorizando-se as camadas mais necessitadas da população. O pagamento do benefÃÂcio deve ser de igual valor para todos, e suficiente para atender às despesas mÃÂnimas de cada pessoa com alimentação, educação e saúde, considerando para isso o grau de desenvolvimento do PaÃÂs e as possibilidades orçamentárias. Diz a Lei que o Poder Executivo consignará dotação orçamentária suficiente para implementar a primeira etapa do Projeto. BrasÃÂlia, 10 de maio de 2005 ContribuÃÂram para esta análise Pe. Antônio Abreu, Bernardo Lestienne, Daniel Seidel, Ir. Delci Franzen. Pe. Ernanne Pinheiro e Pe. Thierry Linard. Pedro A. Ribeiro de Oliveira Professor na Universidade Católica de BrasÃÂlia e Assessor da Comissão Episcopal para o Laicato. |
